Prólogo
A luz estava sumindo quando os três navios estranhos apareceram na costa da Índia, mas os pescadores na praia ainda podiam entrever suas formas. Os dois navios maiores eram barrigudos como baleias, com lados salientes que se esforçavam para sustentar pesados mastros de madeira nas proas e popas. Os cascos de madeira tinham se tornado, com o tempo, de uma cor cinza raiada, e grandes canhões de ferro saíam para os lados, como os bigodes de um bagre monstruoso. Imensas velas quadradas cresciam em direção ao céu que escurecia, cada uma maior do que a anterior e cada uma delas encimada por uma gávea em forma de barrete, fazendo todo o velame parecer uma família de gigantes fantasmagóricos. Havia algo a um só tempo excitantemente moderno e pesadamente primitivo nessas visitas estranhas, mas com certeza nada parecido tinha sido visto antes.
O alarme soou na praia, e grupos de homens arrastaram quatro botes compridos e estreitos para a água. À medida que remavam mais para perto, podiam ver que grandes cruzes carmesins estavam estampadas em cada pedaço de lona.
“De qual nação vocês são?”, o líder dos indianos gritou quando eles chegaram ao lado do navio mais próximo. “Nós somos de Portugal”, respondeu um dos marinheiros.
Ambos falaram em árabe, a língua do comércio internacional. Os visitantes tinham vantagem sobre os seus anfitriões. Os indianos nunca tinham ouvido falar de Portugal, um pequeno país na extremidade ocidental da Europa. Os portugueses certamente conheciam a Índia, e, para alcançá-la, lançaram-se na mais longa e mais perigosa viagem da história.
Era o ano de 1498. Dez meses antes, a pequena frota tinha zarpado de Lisboa, a capital portuguesa, em uma missão que mudaria o mundo. Os 170 homens a bordo tinham instruções para abrir uma rota marítima da Europa à Ásia, desvendar os antigos segredos do comércio de especiarias e localizar um rei cristão, perdido havia muito tempo, que governava um mágico reino oriental. Por trás deste catálogo de improbabilidades, havia uma tarefa verdadeiramente apocalíptica: ligar-se aos cristãos orientais, dar um golpe esmagador no poder do Islã e preparar o caminho para a conquista de Jerusalém, a cidade mais sagrada do mundo. Mesmo isso não era o objetivo final. Mas se eles fossem bemsucedidos, isso poderia ser o começo do fim, o soar de trombetas para a Segunda Vinda e o Juízo Final, que certamente a seguiria.
O tempo diria se essa busca pela Terra Prometida terminaria em algo mais do que castelos no ar. Por ora, somente — e acima de tudo — a sobrevivência ocupava as mentes da tripulação. Os homens que tinham se alistado para navegar para além do mundo conhecido eram de uma variedade ímpar. Entre eles, havia aventureiros calejados, cavaleiros intrépidos, escravos africanos, escribas literatos e condenados se livrando de suas sentenças. A essa altura, já haviam se espremido desconfortavelmente durante 317 dias. Quando deram uma grande volta pelo Atlântico, meses a fio, não viram nada além da costa. E quando finalmente alcançaram o extremo sul da África, já tinham sido alvejados e emboscados, tendo até mesmo acostado na calada da noite. Já não havia mais comida e água, e eles foram assolados por doenças estranhas. Lutaram contra fortes correntes e tempestades que desgastaram os navios e esfarraparam suas velas. Eles estavam certos de que faziam a vontade de Deus e que, em troca, seus pecados seriam absolvidos. Ainda assim, mesmo a pele dos marinheiros mais endurecidos se arrepiava com superstições mórbidas e pressentimentos de ruína. A morte, sabiam eles, podia ser uma gengiva inchada ou um recife não percebido, e não era o pior destino possível. Enquanto dormiam sob estrelas desconhecidas e lançavam-se em águas inexploradas que cartógrafos animavam com monstros marítimos cheios de dentes, não eram suas vidas que eles temiam perder, mas suas próprias almas.
Para os indianos, os forasteiros, com seus cabelos longos e sujos e seus rostos bronzeados e sem lavar, pareciam o tipo mais grosseiro de foca. Seus escrúpulos logo foram superados quando descobriram que podiam vender pepinos e cocos para os estrangeiros a preços interessantes, e no dia seguinte os quatro barcos retornaram para levar a frota ao porto.
Era o momento de fazer o marujo mais estoico se surpreender.
Para os cristãos, o Oriente era a nascente do mundo. A Bíblia era o seu livro de história; Jerusalém, sua capital da fé, suspensa entre o céu e a Terra; e o Jardim do Éden — que se acreditava firmemente florir em algum lugar na Ásia —, sua fonte de maravilhas. Seus palácios eram reconhecidamente entelhados em ouro, enquanto salamandras à prova de fogo, fênix autoimoladoras e unicórnios solitários vagueavam por suas florestas. Pedras preciosas corriam por seus rios e especiarias raras que curavam qualquer padecimento caíam de suas árvores. Pessoas com cabeça de cachorro se esgueiravam, enquanto outras pulavam em uma perna só ou sentavam e usavam o seu único pé gigante como um guarda-sol. Diamantes cobriam suas encostas, onde eram guardados por serpentes e podiam ser recuperados somente por abutres. Perigos mortais espreitavam por toda parte, o que colocava os tesouros brilhantes ainda mais atormentadamente fora de alcance.
Pelo menos assim se dizia; ninguém sabia com certeza. Por séculos o Islã
havia quase que bloqueado o acesso da Europa ao Oriente; por séculos uma
inebriante mistura de rumor e fábula tinha circulado no lugar dos fatos
concretos. Muitos morreram para descobrir a verdade, e agora havia chegado o
momento. O poderoso porto de Calcutá, um empório internacional explodindo de
riquezas orientais, o centro da rede de comércio mais movimentada do mundo,
desdobrava-se aos olhos dos marinheiros.
Não havia pressa em ser o primeiro em terra firme. A antecipação — ou a
apreensão — era demasiada. No fim, a tarefa foi dada a um dos homens que
tinham sido recrutados para fazer o trabalho perigoso.
O primeiro europeu a velejar por todo o caminho até a Índia e pisar em suas
praias era um criminoso condenado.
Os homens nos barcos levaram-no diretamente à casa de dois mercadores
muçulmanos da África do Norte, o lugar mais ocidental que eles conheciam. Os
mercadores vinham da antiga cidade portuária de Túnis, e para surpresa dos
visitantes eram fluentes tanto em espanhol quanto em italiano.
“O diabo te carregue! O que o trouxe até aqui?”, exclamou um dos dois em
espanhol. O condenado compôs-se. “Nós viemos”, respondeu ele em grande estilo,
“à procura de cristãos e especiarias.”
Na ponte de comando, Vasco da Gama esperava impacientemente pelas
novidades. O comandante português era de altura mediana, com uma compleição
forte e atarracada e uma face corada e angular como pratos de cobre soldados.
Por nascimento, era um cavalheiro da corte, embora a testa saliente, o nariz
aquilino, a boca cruelmente sensual e a barba cheia fizessem-no parecer mais
com um chefe pirata. Ele tinha apenas 28 anos quando as esperanças e os sonhos
da nação lhe foram confiados, e ainda que tenha sido uma escolha
surpreendente, seus homens já tinham ouvido falar a respeito de sua coragem e
impetuosidade e já haviam aprendido a temer seu temperamento excêntrico.
Enquanto avaliava seu reino flutuante, os grandes e agudos olhos não
deixavam nada passar despercebido. Uma viva ambição combinada a uma vontade
de ferro o fizeram vencer perigos e distâncias que ninguém tinha conseguido
superar antes, mas ele estava bem consciente de que seu grande
empreendimento havia apenas começado.
A questão que motivou este livro me importunou por muitos anos antes que a
história começasse a tomar forma. Como a maior parte das pessoas, eu ficava
aturdido com o poder das guerras religiosas em nossas vidas cotidianas, e à
medida que eu descobria mais sobre elas, percebia que nós estávamos sendo
arrastados por um conflito antigo para o qual nós desenvolvemos uma espécie de
amnésia coletiva. A razão, acreditávamos, governava o mundo no lugar da
religião. A guerra diz respeito a ideologia, economia e ego, e não a fé.
Nós fomos pegos cochilando na história. A marcha do progresso é uma
fábula que os vitoriosos contam para eles mesmos; os vencidos têm uma memória
maior. Nas palavras dos islâmicos de hoje — que veem a sua luta não como uma
luta para chegar a um acordo com o Ocidente, mas para derrotar o Ocidente —,
a podridão se estabeleceu há quinhentos anos. Isso aconteceu quando o último
emirado muçulmano foi expurgado da Europa ocidental, quando Cristóvão
Colombo chegou às Américas — e quando Vasco da Gama chegou ao Oriente.
Esses três acontecimentos se desencadearam em uma década dramática, e suas
raízes intimamente entrelaçadas mergulham profundamente em nosso passado
comum.
Sete séculos antes dessa década crucial, conquistadores muçulmanos
tinham avançado profundamente na Europa. Na sua extremidade ocidental, a
península Ibérica, eles fundaram um Estado islâmico avançado, e tal Estado havia
protagonizado um papel vital em tirar a Europa da “Idade das Trevas”. Tanto
cristãos quanto muçulmanos começaram a esquecer que o Deus que adoravam
em formas diferentes era a mesma deidade, e os fogos da guerra santa foram
acesos na península Ibérica. Eles queimaram violentamente à medida que
portugueses e espanhóis buscavam retirar suas nações de dentro das terras do
Islã, e eles ainda estavam queimando quando os portugueses embarcaram em
uma missão secular para perseguir seus antigos senhores pelo mundo — uma
missão que inaugurou a Era do Descobrimento na Europa.
Esse timing não foi coincidência. Por centenas de anos a história veio do
Oriente para o Ocidente, e às vésperas da Era do Descobrimento as batidas dos
tambores ficaram mais rápidas. Em meados do século xv a maior cidade da
Europa foi tomada pelo Islã, e soldados muçulmanos estavam uma vez mais se
preparando para avançar em direção ao coração do continente. Numa época em
que ninguém suspeitava que novos continentes seriam descobertos, as esperanças
de salvação da cristandade se voltaram para o Oriente; nas fantasias frustradas
dos europeus, a Ásia tinha se tornado um reino mágico onde uma aliança contra o
inimigo podia ser forjada e o sonho de uma igreja universal podia finalmente ser
realizado.
O pequeno Portugal tinha se proposto a uma tarefa verdadeiramente
audaciosa: igualar-se ao Islã, tornando-se o senhor dos oceanos. À medida que o
esforço coletivo de gerações levou à primeira viagem de Vasco da Gama, os
espanhóis lutaram para se unir à corrida. Uma vez que eles tinham uma
negociação de terras para ajustar, decidiram tentar um vagabundo italiano
chamado Cristóvão Colombo. Em 1498, enquanto Vasco da Gama navegava para
o Oriente em direção ao oceano Índico, Colombo navegava para o Ocidente,
alcançando finalmente o continente das Américas.
Ambos os exploradores estavam procurando pelo mesmo prêmio — uma rota
marítima para a Ásia —, embora a conquista de Vasco da Gama tenha sido
ofuscada pelo erro grandioso de Colombo. Agora que retornamos ao mundo tal
como ele era à época desses homens — um mundo onde todos os caminhos
levavam ao Oriente —, podemos finalmente restabelecer o equilíbrio. As viagens
de Vasco da Gama foram uma importante descoberta em uma campanha cristã
de séculos para derrubar o domínio do Islã sobre o mundo. Essas viagens
modificaram dramaticamente as relações entre Ocidente e Oriente, e dividiram
as eras de ascendência muçulmana e cristã — o que nós, no Ocidente, chamamos
de Era Medieval e Idade Moderna. Elas não foram, certamente, toda a história,
mas tiveram muito mais importância do que nós gostamos de lembrar.
A Era do Descobrimento costumava ser glorificada como uma busca
quixotesca para ampliar os limites do conhecimento humano. Hoje em dia, tende
a ser explicada como um movimento para reverter o equilíbrio global do
comércio. Ambas as opções são verdadeiras: aquela época transformou a
percepção da Europa de seu lugar no mundo e deu início a uma mudança global
do poder — que ainda está em desenvolvimento nos dias de hoje. Mesmo assim,
ela não foi apenas uma nova orientação, mas uma tentativa deliberada de acertar
uma dívida antiga. Vasco da Gama e seus homens nasceram em um mundo
polarizado pela fé, onde lutar contra os infiéis era a mais importante ocupação
de um homem de honra. Como as cruzes vermelho-sangue em suas velas
apregoavam amplamente, eles estavam embarcados em uma nova guerra santa.
Foi-lhes dito que seriam os sucessores diretos de quatrocentos anos de cruzados,
peregrinos nobres que tinham desembainhado suas espadas em nome de Cristo.
Cobraram-lhes que lançassem uma contraofensiva total de encontro ao Islã e
inaugurassem uma nova era — uma era na qual a fé e os valores da Europa
seriam exportados por toda a Terra. Essa foi, acima de tudo, a razão de umas
poucas dezenas de homens velejarem em algumas banheiras de madeira para
além das fronteiras do mundo conhecido em direção à Idade Moderna.
Para entendermos as paixões que levaram os europeus a mares distantes —
e que definiram nosso mundo —, precisamos voltar ao princípio. A história
começa entre as dunas de areia esculpidas pelo vento e as cordilheiras
ressecadas da Arábia, com o nascimento de uma nova religião que invadiu com
velocidade espantosa o coração da Europa.